quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O futebol além das quatro linhas







  Futebol, o esporte mais querido do país. Esporte que já nos deu momentos de pura alegria, mas também de total tristeza, seja com nossa seleção, seja com nosso clube do coração. Porém, ele não se resume àquilo que vemos dentro de campo, aos “vinte e dois homens suados correndo atrás de uma bola”. O futebol transcende as quatro linhas, envolve questões complexas e engloba questões políticas, culturais, religiosas e sociais.
  Um exemplo disso são alguns grandes clássicos que acontecem pelo mundo. Na maioria das vezes esses grandes jogos carregam consigo questões históricas de cada país, que sobrevivem até os dias de hoje. Na Sérvia (ex Iugoslávia), por exemplo, o jogo entre Estrela Vermelha e Partizan Belgrado vai muito além do que acontece durante os 90 minutos. Os dois clubes, fundados logo após logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, protagonizam um dos jogos mais tensos e violentos da atualidade. O motivo? Partizan foi criado como time do exército, enquanto o Estrela Vermelha foi criado por universitários combatentes, defensores da velha união.
  Na Espanha, na Holanda e na Itália ocorre algo parecido. O maior clássico do mundo na atualidade, Barcelona x Real Madrid, viu sua rivalidade surgir quando os catalães, símbolo da luta contra a ditadura, adotaram o Barcelona, e o Real Madrid era um time ligado aos poderosos do governo (além de ser o time de Franco). Na Holanda, o Ajax (um dos maiores clubes do país) foi fundado num bairro judeu de Amsterdam. Nos clássicos contra o Feyenoord, a torcida do Ajax, que leva bandeiras que contém símbolos judaicos, como a Estrela de Davi, e vê a torcida rival (em sua maioria, nazista) responder com sons que imitam os das câmaras de gás usadas por Hitler, além de hostilizar jogadores negros. Na Itália, o jogo Lazio x Roma teve sua rivalidade criada quando Mussolini assumiu ser torcedor da Lazio, impedindo que o time se unisse com os demais clubes da cidade para formar um único time (que se chamaria Roma). Dessa forma, a Lazio ganhou a torcida dos nacionalistas, enquanto os socialistas defendiam a Roma.



  Na Grécia e na Argentina a questão pende mais para o lado social. Boca Juniors e Olympiakos são times de áreas mais pobres, de operários, e fazem clássicos com River Plate e Panathinaikos, respectivamente, que são clubes da elite. Na Turquia, Fenerbahce e Galatasaray tem na geografia um dos motivos de sua rivalidade, que se traduz num dos clássicos mais tensos do mundo. O Galatasaray fica do lado europeu da capital Istambul, o lado dos aristocratas, enquanto o Fenerbahce fica do lado asiático, o lado dos “plebeus”.
  Por fim, na Alemanha e na Escócia, os clássicos encontram motivos religiosos. Separadas por cerca de 40 quilômetros, Gelsenkirchen e Dortmund pertencem à mesma região, que é em sua maioria protestante. Nesse contexto, o Borussia Dortmund foi criado por católicos. A rivalidade entre Schalke 04 e o time de Dortmund é tamanha que os torcedores nomeiam de “cidade proibida” a cidade do clube adversário. Celtic x Rangers acontece há mais de 120 anos na Escócia. O Celtic foi fundado por um padre católico irlandês, enquanto o Rangers é o clube da elite protestante de Glasgow. Esses dois clubes já passaram por períodos onde não aceitavam jogadores de outras religiões em seus respectivos elencos. Um fato curioso é que num clássico, em 1931, uma briga no gramado terminou com a morte de um jogador.



  Vimos que o futebol vai muito além do que é disputado dentro das quatro linhas. Existem questões históricas e culturais de cada país que interferem, e muito, no esporte mais querido por nós. Essas questões não são simples de se resolver, talvez nunca se resolvam, pois vêm de muito tempo atrás, antes mesmo do futebol existir. Mas uma coisa é fato: deixam esse esporte ainda mais fascinante, além de nos mostrar um pouco do que é a cultura, a história de cada país.


Por:
Lucas Valenci,
05/09/2013.




Um comentário:

  1. Lucas, parabéns. As rivalidades geográficas, políticas e étnicas estão bem acentuadas no teu artigo e no caso da Turquia muitos esquecem que o Bósforo separa o Ocidente do Oriente. Ótimo texto, continue assim.

    João Coca.

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