Futebol, o esporte mais querido do país. Esporte que já nos deu momentos
de pura alegria, mas também de total tristeza, seja com nossa seleção, seja com
nosso clube do coração. Porém, ele não se resume àquilo que vemos dentro de
campo, aos “vinte e dois homens suados correndo atrás de uma bola”. O futebol
transcende as quatro linhas, envolve questões complexas e engloba questões
políticas, culturais, religiosas e sociais.
Um exemplo disso são alguns grandes clássicos que acontecem pelo mundo.
Na maioria das vezes esses grandes jogos carregam consigo questões históricas
de cada país, que sobrevivem até os dias de hoje. Na Sérvia (ex Iugoslávia),
por exemplo, o jogo entre Estrela Vermelha e Partizan Belgrado vai muito além
do que acontece durante os 90 minutos. Os dois clubes, fundados logo após logo
após o fim da Segunda Guerra Mundial, protagonizam um dos jogos mais tensos e
violentos da atualidade. O motivo? Partizan foi criado como time do exército,
enquanto o Estrela Vermelha foi criado por universitários combatentes,
defensores da velha união.
Na Espanha, na Holanda e na Itália ocorre algo parecido. O maior
clássico do mundo na atualidade, Barcelona x Real Madrid, viu sua rivalidade
surgir quando os catalães, símbolo da luta contra a ditadura, adotaram o
Barcelona, e o Real Madrid era um time ligado aos poderosos do governo (além de
ser o time de Franco). Na Holanda, o Ajax (um dos maiores clubes do país) foi
fundado num bairro judeu de Amsterdam. Nos clássicos contra o Feyenoord, a
torcida do Ajax, que leva bandeiras que contém símbolos judaicos, como a
Estrela de Davi, e vê a torcida rival (em sua maioria, nazista) responder com
sons que imitam os das câmaras de gás usadas por Hitler, além de hostilizar
jogadores negros. Na Itália, o jogo Lazio x Roma teve sua rivalidade criada
quando Mussolini assumiu ser torcedor da Lazio, impedindo que o time se unisse
com os demais clubes da cidade para formar um único time (que se chamaria
Roma). Dessa forma, a Lazio ganhou a torcida dos nacionalistas, enquanto os
socialistas defendiam a Roma.
Na Grécia e na Argentina a questão pende mais para o lado social. Boca
Juniors e Olympiakos são times de áreas mais pobres, de operários, e fazem
clássicos com River Plate e Panathinaikos, respectivamente, que são clubes da
elite. Na Turquia, Fenerbahce e Galatasaray tem na geografia um dos motivos de
sua rivalidade, que se traduz num dos clássicos mais tensos do mundo. O
Galatasaray fica do lado europeu da capital Istambul, o lado dos aristocratas, enquanto
o Fenerbahce fica do lado asiático, o lado dos “plebeus”.
Por fim, na Alemanha e na Escócia, os clássicos encontram motivos
religiosos. Separadas por cerca de 40 quilômetros, Gelsenkirchen e Dortmund
pertencem à mesma região, que é em sua maioria protestante. Nesse contexto, o
Borussia Dortmund foi criado por católicos. A rivalidade entre Schalke 04 e o
time de Dortmund é tamanha que os torcedores nomeiam de “cidade proibida” a
cidade do clube adversário. Celtic x Rangers acontece há mais de 120 anos na
Escócia. O Celtic foi fundado por um padre católico irlandês, enquanto o
Rangers é o clube da elite protestante de Glasgow. Esses dois clubes já
passaram por períodos onde não aceitavam jogadores de outras religiões em seus
respectivos elencos. Um fato curioso é que num clássico, em 1931, uma briga no
gramado terminou com a morte de um jogador.
Vimos que o futebol vai muito além do que é disputado dentro das quatro
linhas. Existem questões históricas e culturais de cada país que interferem, e
muito, no esporte mais querido por nós. Essas questões não são simples de se
resolver, talvez nunca se resolvam, pois vêm de muito tempo atrás, antes mesmo
do futebol existir. Mas uma coisa é fato: deixam esse esporte ainda mais fascinante,
além de nos mostrar um pouco do que é a cultura, a história de cada país.
Por:
Lucas Valenci,
05/09/2013.
Lucas, parabéns. As rivalidades geográficas, políticas e étnicas estão bem acentuadas no teu artigo e no caso da Turquia muitos esquecem que o Bósforo separa o Ocidente do Oriente. Ótimo texto, continue assim.
ResponderExcluirJoão Coca.