Por André Carmona
Com uma publicidade de
medicamento antigripal estampada, em sua face norte e sul, o relógio, situado
numa das avenidas mais importantes da metrópole, refletia com exatidão a mescla
de difusos raios solares e densas nuvens sombrias que, apagando o sol, faziam
com que os ponteiros digitais se acendessem como vagalumes no verão, marcando o
horário exato de 12h47. O sorriso apressado e alegre do povo, apesar de todo
vórtex climático, nos dá pistas de que se trata de uma sexta-feira. Na estação
do metrô - que se conecta à rodoviária da cidade -, dois jovens, até então
desconhecidos, reconheceram-se. Apesar de nunca terem se visto antes – ou
talvez até tenham -, o modo de se vestirem – trajando parkas militares, chapéu
porkpie à jamaicana, buttons e patches em referência à cultura Mod e Skinhead -, aliado ao específico horário marcado nas catracas da
estação, sugeriam que estavam prestes a embarcar juntos na mesma viagem.
Enquanto esperavam um
amigo – DJ e colecionador de vinis, que se apresentaria em uma festa de música
negra, numa cidade menor localizada mais ao sul, onde igualmente a cena
efervescia -, os jovens já conversavam ansiosamente sobre o que estava rolando
na cena, a cultura de rua, as novidades, as viagens, os novos amigos, os tunes recém-adquiridos em
compactos de vinil 45rpm, e tudo mais que lhes viesse à cabeça. Ao chegar o
desajeitado e simpático amigo DJ, carregando sua maleta recheada de pérolas
jamaicanas, juntamente com os discos de seus amigos do sul – pois os southern boys esqueceram seu case de discos na última festa, na
caótica capital -, partiram em direção ao sul para, além de prestigiar a festa,
levar quase todo o próprio conteúdo da mesma.
Os leitores mais antenados e
apurados, provavelmente, assimilariam que se apresenta aqui um texto sobre
história; mais precisamente – do contexto britânico – sobre a música jamaicana,
o Ska, o Rocksteady, da cena Mod
à Skinhead, e tudo mais que
influenciou e foi influenciado pela juventude britânica dos anos 60, dos
Beatles à Pop Art, da geração Beatnik
ao Northern Soul.
Foto por João Paulo Buiar
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Ao contrário do que se podia
prever no começo dessas tortas linhas, não estamos em Londres, na década de
60’s ou 70’s, vagando de uma cidade à outra, atrás de festas regadas à
anfetamina, muita bagunça , e música diretamente de vinis; muito menos em
Detroit, nos áureos tempos da Motown
– famosa gravadora americana, responsável por prover ao mundo dos mortais, as
mais belas canções da Soul
Music; e nem que os personagens foram tirados dos romances escritos por
Jack Kerouac, ou dos poemas de Allen Ginsberg.
O ano é 2013, o ponto de partida é a cidade de São Paulo e o destino é a capital paranaense. Na bagagem dessa turma: muito amor à música – especialmente à jamaicana -, e à maneira mais tradicional e clássica de curti-la, através de compactos originais e reprensagens, tudo em discos de vinil, para manter a fidelidade sonora e a experiência particular de quem a escuta; pois só assim, na forma mais crua possível, sem auxílio de novas tecnologias, há a possibilidade de realmente sentir a música, a vibração das melodias e compreender, mesmo que inconscientemente, seu processo de construção. O mais curioso e esquizofrênico de tudo isso é que, justamente essa necessidade de voltar às raízes, foi difundida através da internet. Há muitos canais de compra e venda de vinis, sites especializados, blogs, grupos de discussão, e bastante conteúdo para baixar em mp3, aguçando a curiosidade dos novatos, e expandindo a demanda por discos de vinil e eventos que atraiam esse público específico.
Esse fenômeno não é somente
brasileiro e, tampouco, se restringe apenas à música jamaicana. Está
acontecendo no mundo inteiro, com diversos ritmos e fenômenos sociais. São
verdadeiras expressões culturais de distintos grupos, que se unem pelo amor à
música, em busca de novas experiências. Esta motivação contrapõe-se
radicalmente à teoria de que a internet pudesse ter um efeito negativo sobre
outras mídias; que ela aniquilaria os livros em detrimento dos mais cômodos
e-books, ou que o mp3 sacramentasse o golpe final nos CD’s e LP’s. O
consumo e a demanda por Cultura se reinventam a cada ciclo, e na era da
internet não seria diferente. Tudo está na internet. Não tem mais graça ter
apenas cultura digital; as pessoas estão buscando novos limites para a
experiência, e é aí que se inicia a vontade de colecionar vinis, por exemplo,
alega Marcio Néri, colecionador e colaborador do coletivo “Reggay Oldies – Os
Invasores”, em uma longa conversa sobre os queridos bolachões, percorrendo os
400km das tortuosas estradas que separam São Paulo de Curitiba.
Néri ainda nos lembra que, os sound systems – coletivo de seletores ou
DJ’s que davam festas com ampla aparelhagem, em cima de caminhões, nas ruas de
Kingston, capital da Jamaica – , foram os precursores da discotecagem, e
embarcaram no Brasil através de São Luís do Maranhão – a capital brasileira do
reggae -, onde o ritmo caribenho é apreciado sem moderação há décadas. Tanto na
Jamaica quanto no Brasil, esses coletivos buscavam ter os melhores e mais raros
discos de reggae já lançados, pois dessa forma, as festas produzidas por eles
estariam fadadas ao sucesso, impondo aos coletivos rivais que buscassem novos
discos, cada vez mais raros, para atrair mais gente aos seus eventos, e assim
sucessivamente. A coisa era tão séria, que um conhecido colecionador de discos
maranhense, em viagens à Jamaica para compras, chegou a riscar alguns
exemplares repetidos para que seus rivais não os adquirissem, assim, apenas ele
teria aquele específico vinil, transformando-o em raridade. Confira vídeo abaixo:
Como nem tudo na vida são
flores, correr atrás e colecionar esses preciosos bolachões demandam tempo e
dinheiro, mas valem muito a pena - assente Néri. A maior dificuldade para o
colecionador é justamente encontrar os vinis mais raros, que geralmente se
encontram no exterior, e disponíveis – quando disponíveis – somente por meio da
internet. Há ainda o frete e a possibilidade de o vinil ser taxado, encarecendo
ainda mais o produto. Entretanto, o universo dos vinis abre portas, te leva a
buscar outras referências – como, por exemplo, o artista da capa, os
instrumentistas da banda, produtores, etc. -, ampliando a bagagem cultural e
massageando os ouvidos – com a bela qualidade sonora e durabilidade
indiscutível – de quem ousa imergir nesse mundo. As festas, aliás, como afirmou
Néri, não são pelo dinheiro – até porque não dá para se ganhar dinheiro, não
estamos em São Luís -, mas sim, pelo prazer da música, pelas amizades, pela
divulgação da cultura.
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| Foto por João Paulo Buiar |


Muito bom. Achei grande quando vi. Mas bastou começar para ir até o fim. abraço!
ResponderExcluirValeu, Tacco! Obrigado por ter lido e comentado. A intenção era tentar fazer algo mais literário, mais profundo, mas sem querer ser chato. Grande abraço!
ExcluirOlá amigo, só peço que coloque meu nome nos créditos das fotos, João Paulo Buiar. Ficou bacana a bacana a reportagem. Sucesso pra ti e abraço!
ResponderExcluirOpa João, créditos devidamente colocados! Muito obrigado pela mensagem. Sucesso igual pra ti! Grande abraço!
ExcluirParabens André! Passeei na cena com as suas palavras! Voce está em um ótimo caminho! Sucesso
ResponderExcluirValeu, Cícero! Grande abraço, irmão!
ResponderExcluirrelembrando aqui, valeu andré, precisamos marcar outra trip como essa! ass: Neri
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